terça-feira, 6 de novembro de 2007

Patch Adams no Roda Viva

TV Cultura, 5/11/2007 (gravação em 4/9/2007)


O programa foi indescritível. Não sei porque, me emocionei muito mais que “ao vivo”, na palestra “Humor and Health” e no workshop “What’s your love strategy?”. Talvez seja pela TPM, ok, pode ser, mas ele pareceu mais dono do controle no programa. Foi incrível.
Não vou contar todo como foi; ele repetiu muitas das idéias, conceitos, opiniões, posicionamentos, etc. Tudo fantástico. E o mais incrível: em nenhum momento ele citou o palhaço. Todo o trabalho em favor da mobilização social era político, econômico, social, ambiental, vital, tudo o que você possa imaginar.

Ah, e uma coisa nova eu pude aprender; e como.

O apresentador Cunha Jr. apresentou um depoimento pessoal: ele estudou medicina, mas se frustrou com uma série de situações, muito semelhantes às relatadas no filme “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, com Robin Willians. Pacientes tratados simplesmente como fígados com câncer, corrupção, controle da indústria farmacêutica, sobreposição dos lucros à saúde dos pacientes, negativismo, etc. Hoje, ele é jornalista, e com isso é feliz.

Bem, Patch acenou com a cabeça, concordando enquanto o apresentador falava, e então começou: “São pessoas como você que não consigo entender. Vê as coisas acontecendo erradas, e não faz nada para mudá-las, simplesmente desiste! E ainda pensa ser jornalista, você acha que jornalismo existe? Ou também não são corporações sobrepondo seus interesses lucrativos sobre a informação que a população acessa?”. E então ele continuou atacando muito a televisão e as grandes emissoras; e insistiu na primeira questão, que foi a que realmente me tocou. Eu juro que não esperava por essa reação, e é simplesmente lógica, simples e genial!

Quantas vezes nos omitimos de fatos que acontecem diante de nós??? De crianças esmolando na rua? De uma amiga que é molestada pelo namorado? De um colega que sofre preconceito no trabalho? De um político que não é julgado? E a gente simplesmente reage dizendo que o mundo é injusto, de não acreditar que as coisas sejam assim. E não suportamos ter que conviver com isso. E vamos procurar outra coisa para fazer para que possamos contribuir de uma outra maneira (estou sendo otimista com o exemplo de pessoas que procuram contribuir).

A incoerência do mundo que vemos é também a nossa. Eu faço parte do mundo que vejo todos os dias, e se eu não fizer nada para mudá-lo, também contrariarei minha própria ética.

Eu quero enfrentar de frente o mundo em que vivo, com seus prós e contras, e quero fazer tudo o que estiver dentro do meu alcance e dos meus valores para, ao menos, dizer que fiz e exigir que os outros também o façam.


5/11/2007 – Hospital São Paulo

Segunda-feira
Horário: 19h – 21h15

Uau. Uma hora e meia pra apenas um paciente, que nem era da minha área!

Ele estava no corredor, mas em frente a uma porta cuja placa dizia algo como: “Doenças contagiosas e infecciosas”. Pensei, pronto! Peguei piolho. Mas dois travessões depois do “oi” ele já contou que era apenas HIV.

Bem, assim pelo menos eu dava uma variadinha, já que ele estava tão disposto a conversar. Ô moço simpático, achou ridícula a forma como eu estava vestida, ainda mais sem ganhar nada. Haha coitado, ainda não sabia que eu ia cobrar 10 reais na saída...

De qualquer forma, ele começou a desembuxar a vida. Essas coisas comuns, nada de grandes segredos, a única coisa que ele ainda temia era compartilhar a notícia da doença com os colegas, uma vez que ele mora em uma igreja presbiteriana. Ah, mas não pense “esses pastores pervertidos, nossa senhora!”. Ele é convertido há cerca de 10 anos, apenas; e no momento tinha 55 primaveras.
“Estou pagando uma coisa de 15 anos atrás. Exatamente 15 anos. Eu sei exatamente o que foi”. Uma pessoa de extrema e elegante eloqüência, ágil com as palavras, metafórico, subjetivo; eu diria até poético em suas histórias. Sinceramente.

E o melhor de tudo foram os nada de grandes segredos; a cada 10 minutos, ele começava a descrever uma diferente situação em que viveu. E que vida sem emoção. Alcoólatra, toxícólatra (?), uma outra expressão para fumante obsessivo, morador de rua, catador de papelão, detento, etc, etc, etc. E contou todos os detalhes. Apostas na detenção valendo maços de cigarro (Minister era a grande moeda), queimadas de cigarro na barriga em sua primeira internação clínica, bebericadas em uísques de umbanda (em um terreiro que freqüentou por três anos e meio), aventuras noturnas na cracolândia, amizades com prostitutas-traficantes, experiências homossexuais (mas nunca passivas!), uma filha e um neto de pouco mais de um ano de idade, os livros que leu, sua impressão sobre o filme Carandiru (“se cadeia é aquilo, quero voltar pra lá!”), e enfim a redenção a Deus.
Suas olheiras mudavam de cor conforme mudava suas histórias. E ele contava sem pudores (“não vou mais te ver, certo? Posso dizer tudo. O pastor da minha igreja sabe exatamente tudo isso, e mais”). Detalhes. Racionalidade. Apuração de fatos e impressões. A sensação de fumar chá porque não havia cigarro. A perspectiva dos colegas viciados em crack. Sem momentos piegas. Nem hipócritas. E a intenção em cada palavra, a medida certa para cada entonação.
O incrível foi despedir-me dele encarando seu olhar de santo. De um senhor religioso. “Vá com Deus”.

Bem, dadas as 21 horas, apenas passei pelos corredores dos sete andares abaixo, interagindo com os transeuntes. E voltei, reflexiva e impressionada. Ele ainda teria que ouvir “você estava infectado esse tempo todo e nós usamos os mesmos pratos???”.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

20/10/2007 - Hospital São Paulo

Sábado
Horário: 19h - 21h30


Hmm hoje eu fiz um melhor amigo! Foi demais! Demorou um pouco pra ele dizer que me amava, mas depois de uns 40 minutos visitando juntos alguns quartos, ele assumiu. É um menino graduando chamado Ricardo, do quarto ano, que sofreu um coma antes de entrar na faculdade e ainda sofre algumas sequelas. Ele estava de passagem pelos quartos, e de repente contava mais piadas que eu. Ele estava ali por conta de uma paciente, cujo tratamento ele acompanha, a dona Maria Aparecida, uma negona linda e forte, com dois filhos mais lindos ainda, um de 16 e outro de 18; é claro que já viraram meus namorados.
Hoje o dia foi uma alegria. Era incrível como todos me amavam. Eu nem precisava insistir muito, era só perguntar e todos concordavam! Quero dizer, quase todos. Duas pessoas somente resistiram. O meu melhor amigo, de início, e a Márcia, lembra dela? Ela estava com o maridão na minha última visita ao hospital, toda radiante. Bem, quando cheguei no terceiro andar, ela estava sentada nas poltronas ao lado do orelhão, e de cara me reconheceu (apesar de eu estar com a maquiagem bem atrapaiada). Ficamos trocando a maior idéia, até atendemos um telefonema e tivemos que chamar umas pessoas na clínica médica masculina. Acontece que ela tem um problema chamado formigas nos pés, e não consegue ficar parada. Anda o dia todo. O médico, na verdade, diagnosticou que ela é peralta. E que o problema que ela tem na cabeça chama-se loucura, isso sim. Menina louca. Nâo parava de jeito nenhum, em todos os quartos nos quais eu passava ela estava lá. Arrecadava comidinhas pra todo lado. Conversava com todo mundo. Ela estava com o braço roxinho, roxinho, e o médico nem conseguia mais encontrar veias para dar uma picadinha. Então ele teria que picar o pé. Pronto! Foi a maior afobação! Imagine ela, sem poder andar pra lá e pra cá? Nunca!!!
A dona Lucinda estava com a filha, que parecia que tinha a cara meio trancafiada, mas vi que não era séria. E a dona Maria também estava ainda no leito ao seu lado, mas seu estado não estava muito reconfortante. Ninguém consegue entender o que ela diz, pois está toda entubada e tem muita dificuldade em se expressar. Mas ela continua tentando. Eu conversei com ela, apesar de não estar entendendo bem o que ela dizia, paralelamente aos alertas da Dona Lucinda de não me aproximar e nem tocá-la (a placa reforçava que ela estava em condições de isolamento). E, na saída, ela dizia: "obrigada, tchau!"...
--------------
Às vezes me dá um desânimo de ir até o hospital. Principalmente porque tenho andado muito cansada e cheia de trabalho e responsabilidades. Pouco tempo pra mim mesma. E tenho medo de que o hospital seja uma sobrecarga para a minha falta de atenção comigo mesma. Mas então eu lembro do porque me comprometi com esse trabalho, e eu levo muito a sério esse negócio de palavra. E também me recordo da Roberta, do Centro de Voluntariado de SP, respondendo a uma colocação de um funcionário do Itaú, durante uma de nossas palestras. Ele dizia: "eu nem sempre ia até a creche, porque sei que se eu não estiver bem, descansado, feliz e sob todas as condições, posso não fazer bem às crianças", e ela: "quando você não acorda bem, descansado, feliz e sob todas essas condições, não vem trabalhar no Itaú, não?".
Tipaf!!!!!!!!!!!!!!!!!
E é gol.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

01/10/2007 – Hospital São Paulo

Horário: das 19h às 21h30




Quase 30 minutos só no corredor das neurocirurgias, por conta de uma moça que estava esperando uma senhora, que já estava com alta, desocupar o quarto. Ela estava lá desde as 16h esperando, e era 19h! Estava ela e a vizinha. Ela era cearense e forrozeira de primeira hahaha pena que não quis dançar comigo no corredor.

Na clínica médica feminina, conheci uma menina que já estava de saída. No quinto semestre de contabilidade, ela quis saber mais sobre minha graduação em besteirologia, mas eu disse que pra saber mais ela tinha que topar um quis-bate-bola-passa-ou-repassa. Arredou.

No primeiro quarto, conheci a dona Lucinda e a nora, uma fofa. A dona Maria não conseguia falar, apenas gesticular os lábios, mas cantei Maria, Maria pra ela e ela não parava de rir. Será que eu cantei tão mal assim???

A Ritinha era linda, e estava lendo vários livros pois quer ser assistente de enfermagem. Ela disse Deus-me-livre quando perguntei se ela estava fazendo estágio prático no leito, mas deu muita risada.

A dona Marcia estava toda sorridente com o maridão Cristiano ao lado. Radiantíssima, e está internada desde o dia 10 de agosto. Fazendo uma série de exames e tratamentos para evitar uma cirurgia que remova pus do cérebro. Não entendi direito o que ela pôs, mas ela também não soube explicar.

A dona Nilda, por sua vez, estava bem branquinha de anemia, e estava estreando um conjunto de tubinhos que não a deixavam dormir de lado. Mas também foi superdivertida.

O residente Ernesto, que negou ser chamado de Che, disse que me amava mesmo tendo namorada. E as mocinhas da limpeza que estavam no sétimo andar descobriram minha identidade secreta porque ficaram fazendo plantão no corredor, até eu terminar de me trocar! Vê se pode!



domingo, 30 de setembro de 2007

17/09/2007 - ReciclaCanto


















Um curso de assedentarismo avançado.

16/09/2007 - Domingão Cidadão

Aproximadamente 30 Doutores Cidadãos se reuniram no Hospital Regional de Osasco.



Mais fotos: http://www.cantocidadao.org.br/fotos.php?GaleriaId=19.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Remoticidade


Traking e recording pelo controle remoto. Devolve, me dá, não faz para me provocar.


Trocando o canal, viajei nos cordões de uma viola redonda de aço, catei coquinho de chapéu de palhaço, mergulhei nas águas de março de um ano trissexto. Senti perfume de cola quente, descobri o Brasil por São Vicente, respondi à vidente porque tanta gente pergunta. Li entrelinha de tricô, lavei o cabelo onde se faz cocô, inventei clichê default de poema libertário.


Troca o controle remoto, mãe, troca, que tudo está sem controle. O controle não funciona, mãe, perdi o controle, não encontro em lugar algum. Mãe, me ajuda, por favor! Mãe, eu não consigo assim... Eu quero meu controle, me dá o controle de mim!


Troca o canal, você está cortando o remendo improvisado, misturando Chico com Frank dos teclados, falando tudo errado só porque é gramaticalmente correto. Assoprando vela de sete dias, consolando mendigo que já não bebia, recolhendo garrafa vazia pra encher a geladeira.


Devolve o controle, que sem controle não faço nada! Mãe, sozinha eu não controlo, me bota no colo e me faz voltar a controlar. Segura minha mão, mãe! Me ajuda a manipular. Manipula, mãe não pula, que eu controlo e quero de volta o controle remoto, mãe... Mãe, o desespero é alentador, me arranja um controle remoto, remonta a dor, rebobina a controvérsia, pausa o descontrole. Eu nunca quis perder o controle, não escolhe por mim, mãe. Eu quero independência, me dá de volta o negocinho que avança pra frente e volta pra trás, coloca ordem e pula as fases, mãe me deixa. Eu quero tudo, mãe, tudo! Tudo sob controle!!!

domingo, 9 de setembro de 2007

08/09/2007 - Hospital São Paulo

Início: 12h15 / Término: 14h


Numa saga indescritível, comprei novas luvas e chapéu pela manhã, na Ladeira Porto Geral. Ainda encontrei uma amiga nas catracas do metrô que já me avisava de antemão que a rua estava impossível - “boa sorte”. Ainda bem que a loja ao lado da entrada da estação do metrô tinha tudo o que eu precisava; meu infortúnio fora atravessar um oceano de carne e cabelos com uma mochila gigante. E, como se não bastasse, ainda me lembrei que havia esquecido meu jaleco em casa. POATZ.



Com isso, cheguei ao hospital às 11h50, mas a alegria lava a alma, minha gente! E desodorantes emergenciais servem pra isso mesmo. Acabei me trocando e me maquiando demasiadamente depressa, e nem fiz um break-relaxing. Confesso que isso faz falta. Iniciar as mil interações sem fazer um momento de silêncio não foi muito saudável, pois senti uma grave queda de energia ao terminar, e fiquei o dia inteiro acabada. Lembrete: sempre fazer relaxamento antes de sair do minúsculo banheiro, mesmo que haja fila.



A clínica de endocrinologia e cirurgias torácicas não é de minha abrangência, mas como o banheiro fica nesse território, não há como evitar olhares e sorrisos interessados quando ainda estou de mochila e fechando a porta. Assim conheci o enfermeiro Douglas, a menina Débora e sua mãe, Iraci. Duas graças, a filha de 16 anos e a mãe de 42. Depois de longas risadas, Débora me levou para visitar Ana, uma moça paraguaia que estava num quarto próximo.



Bem, nada como um hospital para treinarmos castellano, no? Ana e Rita, sua vizinha (suavezinha?)de cômodo, depois até me ouviram ler uma crônica de Luis Fernando Veríssimo.
No terceiro andar, conheci mais algumas moças – Iraci Adriana, que é chamada pelo primeiro nome no hospital, mas gosta do segundo, e dona Maria José e sua irmã. Maria José e sua irmã são analfabetas, e a segunda teve 12 filhos, mas hoje estão vivos apenas 5. São ambas de Recife e donas-de-casa.



No outro quarto, encontrei novamente a dona Oneide (quero dizer, eu, como quase todos, achava que era Neide), com uma nova colega, a Miriam. A Oneide me viu do lado de fora do quarto e já começou a gritar “cadê meu nariz? Cadê meu nariz?”, achei bárbaro! Ela está há exatamente um mês internada, ela não esperava tudo isso. Está em recuperação de um processo depressivo, mas parece bem melhor! Falante, empolgada, mas com mais aparelhagens em torno de si. É claro que as duas ganharam um nariz cada, e caíram na gargalhada quando contei até três e se entreolharam sobre as “bolas rojas”. Lindas e radiantes. Miriam trabalha na lavanderia do hospital e já estava se recuperando.



Duas horas e sete pessoas; minha média está interessante. Não consigo entrar e sair de um quarto sem garantir que o paciente esteja conversando bem, principalmente que esteja conversando com seu colega de leito... Se tem uma coisa que aprendi com a vinda do Dr. Patch Adams, é que a “amenização” não pode estar somente no momento em que o voluntário está no ambiente, mas sim na transformação do mesmo...



segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O que é musicoterapia?



Nada melhor do que presenciar, dentro do Mercedes-Benz no qual eu me locomovia em direção ao HSBC Belas Artes, um pequeno mas amável concerto de cordas.




Um violão de seis cordas e um violino. Adorável, não??? Bem, o carequinha da minha frente estava um pouco impaciente. Ele deve ser jurado ou banca de concursos de música e ter mania de perseguição, algo do tipo.


A questão é... O Patch Adams disse hoje, em sua palestra aqui em São Paulo (organizado pela http://www.copatch.com/), que achou engraçado quando disseram a ele o termo "musicoterapia" (provavelmente disseram isso em inglês). Puxa, na hora fiquei triste. Antes de ter a dúvida publicidade ou jornalismo, e depois de ter desistido de fazer artes cênicas, eu pensei nas tais terapias alternativas. Afinal, nada mais descolado, não? O importante é ter espaço no mercado o suficiente para inovar e não lidar com gente que acha que manja de tudo.


Enfim. Ele achou bonitinho, engraçadinho. Musicoterapia. Isso foi quando uma moça perguntou a ele que dicas ele teria para que ela montasse uma ala de lazer (lazer, não laser, porque isso já tem de monte) no Hospital Albert Einstein, um projeto revolucionário, segundo ela, mas que estava disposta a tocar adiante. Bem, ele achou engraçado ter um departamento para o lazer. Lazerterapia. Como a tal musicoterapia. Arteterapia? (Arteriaterapia?? Artriteterapia??? Huhuauah que divertido isso.) Ai está o problema, ter que criar departamentos para essas coisas. A humanização hospitalar está exatamente na questão de que é a estrutura, o ambiente, os processos hospitalares que precisam sofrer um check up emocional.


Bem, isso não é só no hospital. Imagina se a gente inventa de ouvir música só fora do horário de trabalho? Imagina se a gente inventa de se divertir só quando não tem nada pra fazer, quando tem tempo livre? Imagina se a gente pensa que ser profissional e fazer um trabalho sério é ser sério. Sisudo. Que isso impõe respeito. Aliás, imagina a gente ter que impor respeito ao invés de conquistá-lo??? Puxa, a vida ia ser um saco, né?



(desculpe pela resolução, mas é foto de celular, sabe como é que é que trabalham essas células né? - e você viu que chique essa moda da tiarinha?)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

20/08/2007 – Hospital São Paulo

Início: 19h30 / Término: 21h00


Ser piegas e ser clichê são coisas diferentes, fala aí. Puxa, eu posso até ser clichê, mas o possível para não ser piegas tem que ser feito. O que é complicado quando se trata de situações tão delicadas, quando qualquer palavra mal colocada pode causar o maior mal estar.
A tendência para o piegas é grande. Falar palavras bonitas, de ânimo e coragem, para pessoas que estão tão próximas de deprimir-se, quando não o estão de fato, é o que se espera no final da visita. Apenas as risadas não são necessárias – na verdade seriam, mas nem sempre as fichas caem. Aftas ardem, hemorróidas idem.

Aliás, nem para as risadas estive tão inspirada hoje. Misto de um pouco de nervosismo pela minha primeira atuação totalmente sozinha, com o vazio do hospital em greve.
Na clínica médica geral havia apenas dois quartos preenchidos na ala feminina. Apenas um com isolamento de contato.

No primeiro quarto, Helena e a mãe, dona Rosângela, e Vanessa. A Vanessa, 19 anos, mãe de um menino de 3, talvez retraída pela visita da outra, era bem mais quieta; arrancar uma palavra sua custava mais. Já a dona Rosângela e a Helena falavam bastante, e a mãe estava empolgadíssima com a visita de um Doutor Cidadão. A Michele, cujo nome de doutora hei de lembrar para não estragar sua graça, esteve ali na terça-feira passada, e elas estavam presentes. Tiraram fotos no celular e tudo o mais. Aliás, sofri vários atentados de uso de imagem – que celular high tech que aquela menina tinha! Filmava e tudo o mais.

Bem, a mãe era a mais emocionada. Ela se dizia mais criança que as meninas. Isso me deixa um pouco constrangida, ouvir muitas gracinhas do tipo “vocês são tão fofas, deveria haver mais pessoas como vocês no mundo, em todo lugar, em toda situação”, quando ela ainda mal conversou com a gente. Ela nem sabia se eu ia maltratá-la, uai! Mas enfim, retornar com um “apenas pessoas especiais como vocês tornam uma visita nossa um grande evento como esse, porque vocês nos recebem com toda essa alegria e nós é que ficamos contagiados!”. Mas é mesmo, né! Coisa gostosa ser bem recebido assim. Como a Helena insistia para que eu passasse a noite ali, e eu apenas com a desculpa de que no hospital não servem a minha marca de alpiste, dei um nariz vermelho para a dona Rosângela alegrar o quarto durante o resto do tempo. Ela ficou radiantíssima.

A Helena contava que tinha vários cachorros, galinhas e plantas em casa, mas as galinhas eram constantemente atropeladas pelos carros da rua, e assim ela foi atropelada também. Pelas galinhas? Não, por um carro. E estava ali há dois meses, porque teve um princípio de pneumonia, além de tudo. Gastei uns bons 40 minutos nesse quarto.


No segundo quarto, fiquei do lado de fora e disse que estava esperando alguém me convidar para entrar. Estava de saída a dona Maria. Cozinheira de um restaurante na Alameda Santos, 68 anos, cabelos vermelhos-escuro, magra, de óculos ovais e de semblante positivo, já foi a primeira a cumprimentar, após o agradável convite “entre” de sua irmã, Neide. Neide deu um lindo sorriso, mas a outra paciente, Adriana, mais nova, não parecia muito empolgada, apesar de eu ter feito algumas gracinhas faciais com ela enquanto eu ainda estava no corredor.

Adriana, 18 anos, por umas duas ou três vezes, sentada na poltrona, virou para o lado para cuspir um leve regurgito, e permaneceu quieta a maior parte do tempo. Dona Maria era a que mais falava, seguida de dona Neide, a quem dirigi boa parte das minhas perguntas. Dona Neide, aposentada por conta de sua saúde, é de Campinas e estava em uma emergente depressão. Bom, daí começaram as “palavras de coragem”, claro. Não consigo ver uma pessoa deprimida, mas parece que as palavras bem aí tendem a ser piegas. Comecei instigando que ela aproveitasse o tempo que fica ali para pensar na primeira coisa que gostaria de fazer quando saísse, no que ela estava ansiosa para fazer, quem ela estava ansiosa para ver... Daí parti pro Sílvio Santos entrando no quarto, com mil câmeras, iluminação, gruas e tudo o mais, dizendo que ela teria que mostrar um talento para ganhar um milhão. Só um talento, só um. Bastava dizer qual era, mas ela resistia em dizer qualquer coisa que ela pudesse fazer bem. Ela apenas apontava a irmã e dizia que a irmã, sim, sabe cozinhar, etc e tal. Particularmente, parecia que ela queria mais fazer uma vitimização perante a irmã. Bom, quando acabou minha criatividade para tirar algo de bom dela que a faria ter vontade de sorrir pra vida, parti pras palavras pregadoras. Hahaha, que horror. Sério, falei que as nossas coisas boas são as únicas que, quanto mais você dá, mais tem. Sua alegria, oferecida a mais pessoas, mais o deixa alegre. Não adianta ser esperto ou inteligente se não compartilhar com outras pessoas; é como juntar dinheiro embaixo do colchão e deixar lá pra sempre. Ninguém aproveita, nem você mesmo! Além disso, essas coisas boas precisam ser não só lembradas como vividas em todos os momentos da vida, inclusive ali, no hospital, onde tenho certeza que ela não escolheu estar. Cada minuto ali também era precioso, ela precisava fazer planos, pensar em seus talentos e como aproveitá-los onde quer que esteja – costurar, escrever, cantar, fazer caretas...

Bom, daí passei pelos outros quartos e não havia mais ninguém. Fiquei algum tempo interagindo com as enfermeiras e visitantes que estavam no corredor, mas não havia muito agito, não. 20h55, voltei pro sétimo andar pra me trocar de novo. Na saída, ainda ouvi umas piadinhas das enfermeiras, “vai, Nanci, pega a chave pra palhaça, hihihi, palhaça, hhihihi” – “ai, não fala assim dela hihihi palhaça hahaha”. Bom, tomara que seja inveja... =)

domingo, 12 de agosto de 2007

O dia em que o coração ultrapassou a garganta

Sinto um pulsar sob o cimento, um crânio de cálcio solidificado recheado de sangue efervescente. Eu sinto meu coração apertado dentro da minha cabeça. Não, meu coração não ficava mais à vontade dentro do espaçoso tórax, acho que a proteção de meus pequenos seios não suporta tanta revolta. Ele já subiu por minha garganta, mas meu cérebro foi mais rápido que a movimentação involuntária de minha boca e, evitando uma histérica diarréia oral, dispersou-se por outras partes do meu corpo, aprisionando o coitado sentimentalista na imensa caixa localizada na cobertura de uma estrutura de um metro e sessenta e cinco de altura.

Agora o cérebro pode ter, sob controle, próximo e rígido, muito mais partes do meu corpo. Ele precisa verificar, presencialmente, se todas as artérias estão distribuindo corretamente os nutrientes do sangue, e se o fígado está suportando tanto álcool, enfim, as planilhas e o sistema de filmadoras de segurança já não eram mais suficientes. Esses neurônios são lentos demais! Como um bom agnóstico, não consegue confiar que o corpo humano, sozinho, consiga manter toda a saúde sob rígido controle; afinal, com tanta complexidade, é natural que surjam diversas falhas, comprometendo o sistema imunológico. Como que um organismo pluricelular de um porte desses pode viver sob um regime democrático?

O coração, por sua vez, está seguro dentro do cofre craniano. Se o mesmo não fosse tão simétrico, sentir-se-ia numa obra de Niemeyer. Se fosse uma lady darwinista, diria que está no topo da cadeia elementar. Puxa, ele tem a melhor visão panorâmica da vida, com direito a garantia anti-choque e complete care, além de tomar tudo de canudinho. Agora ele ouve tudo em um real stereo, assiste tudo de camarote, melhor que se fosse ao cinema, e ainda, se esticar a perninha e der um leve chute, interfere numa de minhas numerosas expressões orais. Ele fica por trás dos olhares, manipula o infinito de minhas íris, o foco de minhas atenções; ele se diverte quando me faz sentir-me nua expondo tudo de si num simples piscar de cílios.

Ele fecha minhas pálpebras para que possa se divertir com meus outros sentidos também, e ele sente tudo. Ele gosta de brincar de somar as sensações, ouvir sons e palavras instigantes, encostar a maior superfície possível de minha pele nas coisas, reunir o maior número de sabores na minha língua, decorar os perfumes dos outros... E quando tudo acontece ao mesmo tempo, ele exerce o supremo poder sobre o corpo inteiro. Tudo palpita, tudo se contrai e distrai, tudo absorve, tudo se esquece de suas funções originais e tudo brinca de fantasiar com todo o possível. E, enquanto o corpo parece totalmente sem controle, ele sabe exatamente tudo o que acontece. Ele se sente soberano sobre tudo, é quando o cérebro finalmente não pode manipular o organismo, e não pode lutar contra ele. O cérebro entra em reviravoltas, e quando tudo parece voltar ao normal, retorna ao poder como num luto revoltado e indomável.

Bem, exceto nesse momento, o cérebro fiscaliza tudo o que o coração procura fazer, permitindo algumas infrações sem sérias conseqüências, apenas. Mas o coração sabe se fazer de besta.

Eu acho que o coração sempre esteve na cabeça e o cérebro distribuído no resto do corpo, mas na escola aprendemos o contrário pra ver se finalmente o bobo manipulador se encaixa no local adequado e assume sua humilde função de auditor inconformado. Enquanto isso, aqui estou eu tentando colocar meus sentimentos em palavras.

domingo, 15 de julho de 2007

14/07/2007: Terceiro dia de estágio - estréia no Hospital São Paulo

Hospital São Paulo
3º dia de estágio
Das 10h às 13h

Monitora: Carolina Morisawa

Estagiários: Marta (Dra. Joaninha) , Michele e Antonio, todos atuarão às terças-feiras no Hospital... Somente eu irei às segundas!




Hmmm finalmente conheci o hospital onde vou atuar!!! Bem maior que o Hospital Brigadeiro... E com os andares muito bem estruturados e cuidados, acho que uma parte é conveniada e outra é pública. Tem alas patrocinadas também, vi umas placas com nomes de marcas como a Vivara.

Trocamo-nos no sétimo andar, num pequeno espaço onde havia dois banheiros individuais. Doutores apresentados entre si, e pronto! Primeiro percorremos um pouco o hospital, começando do térreo, com os seguranças, recepcionistas e visitantes, e depois fomos subindo. Num dos andares, uma médica nos chamou para conhecer o laboratório, e o pessoal era muito empolgado. Foi demais! As laboratóricas nos viam e começavam a dar risada, acho que é meio inusitado encontrar palhaços enquanto você está analisando tubos de ensaio... Depois de ficarmos todos amigos das bactérias e sanguinhos, e continuamos nossa saga.

A maior parte do hospital estava tranqüila, estava havendo greve, poucos pacientes e menos ainda funcionários. A clínica médica, onde todos nós iremos atuar depois de formados, fica no terceiro andar.

Muitas senhoras simpáticas, a maioria nos achava uma “gracinha”, “todas lindas” e daí a gente ficava tricotando, né! Vi que só tinha mulher, pensei “nossa, que crise, hein!”, e então partimos para a ala masculina – nem sabia que era dividido assim, de um lado do andar só a mulherada, e do outro, os machos.

Em um dos quartos, tivemos uma rejeição. Bem explícita, aliás, como nenhuma outra. Seu Francisco e seu José. Seu Francisco ao lado da porta, deitado com a barriga descoberta pra cima, barba e cabelo rasos e grisalhos. O seu José, por sua vez, teve muita dificuldade para dizer seu nome, e sua roupa estava bem manchada de sangue. Moreno, tinha o cabelo raspado e o corpo encolhido embaixo do cobertor. Seus olhos saltavam, querendo expressar algo desesperador.

Começamos a conversar com o seu Francisco, perguntando sobre ele, o que gosta, se é casado, e então ele interrompeu, secamente: “olha, eu não quero saber dessa conversa de vocês, não quero saber de ninguém, não quero saber de nada lá fora, eu estou doente e não vou ficar aqui fingindo que nada está acontecendo”, começando a se exaltar. Seu José começou a respirar de forma extremamente arfada, vidrando ainda mais seus olhos em nós. Esclarecendo seriamente a intenção do nosso trabalho, e reforçando nosso respeito no caso dos pacientes que não desejam nos receber, observamos seu Francisco cerrar os olhos e virar o rosto, enquanto seu José ainda arfava, se mexendo e mantendo seu olhar esbugalhado. Parecia que queria saltar da cama, o quarto estava tenso.

Ok, não foi um momento agradável de se narrar. Muito menos de estar. Mas rapidamente nos despedimos e saímos. Foi um instante rápido, mas que durou muito tempo em minha cabeça. O que será que seu José estava sentindo, pensando, querendo dizer ou agir? Eu deveria ter perguntado à enfermeira em vez de ficar imaginando isso depois...

Apesar de proporcionarem situações constrangedoras, é por essas pessoas que estamos lá. Para que elas não negativem tanto o ambiente, tornando-o tão incômodo e pesado, dificultando ainda mais a recuperação de todos. O lado bom é que muitas pessoas também internadas se sentem à vontade conosco e com os demais pacientes para conversar sobre tudo, contar suas histórias e dar risada. E aumentar ainda mais a vontade de melhorar logo, chegar em casa, ser recebido por pessoas queridas e até, quem sabe, fazer algo a mais pelo mundo.

Sei lá, eu acho que é um pouco disso o que estamos fazendo ali. Não estamos pra fazer apenas meras piadinhas e “alienar” os pacientes da realidade. Não é à toa que tantos hospitais estabelecem contratos com organizações sociais para que esse tipo de trabalho seja efetuado entre seus atendidos. Não somente crianças como também adultos e idosos, como é o nosso caso.

Quero dizer, chegamos a ir até a pediatria, nos últimos 25 minutos. Mas é diferente – nosso objetivo na pediatria é “amenizar” o ambiente para os pais e acompanhantes das crianças.

A primeira mãe que conversamos estava com cara de longas lamúrias. Seu semblante era cansado e sério. Ela estava estirada numa poltrona, ao lado de um pequeno leito onde seu filho de 12 anos estava deitado. Mãe é foda. Desculpe a palavra, mas acho tão difícil expressar com outra coisa. São mães que largaram seus empregos, que passam noites em claro, que deixaram seus outros tantos filhos em casa, que ficam longe do apoio do marido... Mas que nunca permitiriam que seus filhos sofressem tanto quanto elas. E é essa sofreguidão que os filhos sentem nos leitos. Essa tensão pela dor. Esse lamento silencioso. Mães que tentam carregar consigo tudo o que puderem, com a força que arrancam de nem imagino onde!

Bom, mas o fato é que uma criança acompanhada por tantos sentimentos pesados assim não melhora. Pode até sair do hospital, mas traumatizada pelas condições compressoras. É por isso que as mães também precisam estar positivadas, precisam transmitir boas emoções para seus filhos, que são tão sensíveis a elas. Elas estão lá, mas o carinho e o orgulho precisam ser maiores.

E são crianças e bebês em todos os estados. Não chegamos a entrar na UTI, porque o tempo se esgotou rápido, mas passamos pelos quartos e atuamos rapidamente em cada um. Apesar de as mães sempre chamarem seus filhos “olha, filhinho, o palhaço!”, é com elas que queremos falar.

Bem, nada fácil. A Carol adora a pediatria. Eu senti muito impacto e dificuldade. É realmente bem diferente de atuar apenas com adultos.

Hoje foi uma experiência e tanto. Sem idéias pra quanto cansaço senti ao chegar em casa. Dor nos joelhos, fome e sede, bem como a Carol nos perguntou. Totalmente acabada. Mas refletindo.

Eu acho que ainda vou ter altos insights. Peraí.


01/07/2007: Segundo dia de estágio, no Hospital Brigadeiro

Editar.

24/06/2007: Estréia no Hospital Brigadeiro


Dra. Sabiá Saltenha, nossa monitora!





Foi mais uma visita-exploração.

Jeito de estréia mesmo.

Surpresas.

Insegurança.

Inexperiência.

Curiosidade.

17/06/2007: Segunda (e última) tentativa de Dra. Massarinho




Agora sim, maquiagem, roupa e nariz. Agora só falta o jaleco... rsrs

28/04/2007: Abração na av. Paulista





Nada como suprir carências afetivas na faixa...

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Primeira tentativa




31 de maio de 2007.
Primeiras tentativas para se chegar à personagem Dra. Massarinho.
De pijama.
De olhos vermelhos por conta da maquiagem.
Às 2h da manhã de uma quinta-feira.
Pressa para ter a personagem para o próximo encontro dos doutores.
(sem o nariz eu parecia uma gueixa-gambá!)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Praticamente auto-ajuda, se não fosse ano-novo

(Detalhe do Teatro Municipal de Araras)
Os caminhos são percorridos...
Corridos, andados e caminhados;
podem ser até atalhados, mas exigem suor.

E quando finalmente percebemos
que estamos próximo ao perfeito ou ideal,
tudo se inverte, desequilibra, foge do horizonte vital.

Percebemos que nossas referências
nada mais são que aprendizados.
Nada mais que experiência para se superar os próximos desafios.

Isso é quando perdemos tudo, ou quando ganhamos tudo,
é quando chegamos lá no ápice.
(você já sentiu isso?)

É por isso que não nos apegamos a qualquer coisa,
que construímos o que somos por nós mesmos,
sob as nossas condições e com as nossas matérias-primas.

Construímos o que somos com o que nos realiza,
somos o que somos com o que nos satisfaz,
seremos o que somos com o que é verdade para nossas felicidades.

O que é essencial para não se tornar mais um conformista!

Sim, deve haver conciliação do que devo e do que gosto,
devo pensar sempre duas vezes e sentir mil vezes mais.
Aproveito-me dos clichês para fazer sempre algo diferente.

Mas não me esqueço que a coerência de meus valores e minhas ações
constrói a minha totalidade equilibrada.
E equilíbrio é a união dos extremos – é ser intenso!

Afinal, de que adianta falar tantas palavras,
se não consigo passar o valor de tê-las vivido?
Digo: seja equilibrados, e não ameno.