segunda-feira, 20 de agosto de 2007

20/08/2007 – Hospital São Paulo

Início: 19h30 / Término: 21h00


Ser piegas e ser clichê são coisas diferentes, fala aí. Puxa, eu posso até ser clichê, mas o possível para não ser piegas tem que ser feito. O que é complicado quando se trata de situações tão delicadas, quando qualquer palavra mal colocada pode causar o maior mal estar.
A tendência para o piegas é grande. Falar palavras bonitas, de ânimo e coragem, para pessoas que estão tão próximas de deprimir-se, quando não o estão de fato, é o que se espera no final da visita. Apenas as risadas não são necessárias – na verdade seriam, mas nem sempre as fichas caem. Aftas ardem, hemorróidas idem.

Aliás, nem para as risadas estive tão inspirada hoje. Misto de um pouco de nervosismo pela minha primeira atuação totalmente sozinha, com o vazio do hospital em greve.
Na clínica médica geral havia apenas dois quartos preenchidos na ala feminina. Apenas um com isolamento de contato.

No primeiro quarto, Helena e a mãe, dona Rosângela, e Vanessa. A Vanessa, 19 anos, mãe de um menino de 3, talvez retraída pela visita da outra, era bem mais quieta; arrancar uma palavra sua custava mais. Já a dona Rosângela e a Helena falavam bastante, e a mãe estava empolgadíssima com a visita de um Doutor Cidadão. A Michele, cujo nome de doutora hei de lembrar para não estragar sua graça, esteve ali na terça-feira passada, e elas estavam presentes. Tiraram fotos no celular e tudo o mais. Aliás, sofri vários atentados de uso de imagem – que celular high tech que aquela menina tinha! Filmava e tudo o mais.

Bem, a mãe era a mais emocionada. Ela se dizia mais criança que as meninas. Isso me deixa um pouco constrangida, ouvir muitas gracinhas do tipo “vocês são tão fofas, deveria haver mais pessoas como vocês no mundo, em todo lugar, em toda situação”, quando ela ainda mal conversou com a gente. Ela nem sabia se eu ia maltratá-la, uai! Mas enfim, retornar com um “apenas pessoas especiais como vocês tornam uma visita nossa um grande evento como esse, porque vocês nos recebem com toda essa alegria e nós é que ficamos contagiados!”. Mas é mesmo, né! Coisa gostosa ser bem recebido assim. Como a Helena insistia para que eu passasse a noite ali, e eu apenas com a desculpa de que no hospital não servem a minha marca de alpiste, dei um nariz vermelho para a dona Rosângela alegrar o quarto durante o resto do tempo. Ela ficou radiantíssima.

A Helena contava que tinha vários cachorros, galinhas e plantas em casa, mas as galinhas eram constantemente atropeladas pelos carros da rua, e assim ela foi atropelada também. Pelas galinhas? Não, por um carro. E estava ali há dois meses, porque teve um princípio de pneumonia, além de tudo. Gastei uns bons 40 minutos nesse quarto.


No segundo quarto, fiquei do lado de fora e disse que estava esperando alguém me convidar para entrar. Estava de saída a dona Maria. Cozinheira de um restaurante na Alameda Santos, 68 anos, cabelos vermelhos-escuro, magra, de óculos ovais e de semblante positivo, já foi a primeira a cumprimentar, após o agradável convite “entre” de sua irmã, Neide. Neide deu um lindo sorriso, mas a outra paciente, Adriana, mais nova, não parecia muito empolgada, apesar de eu ter feito algumas gracinhas faciais com ela enquanto eu ainda estava no corredor.

Adriana, 18 anos, por umas duas ou três vezes, sentada na poltrona, virou para o lado para cuspir um leve regurgito, e permaneceu quieta a maior parte do tempo. Dona Maria era a que mais falava, seguida de dona Neide, a quem dirigi boa parte das minhas perguntas. Dona Neide, aposentada por conta de sua saúde, é de Campinas e estava em uma emergente depressão. Bom, daí começaram as “palavras de coragem”, claro. Não consigo ver uma pessoa deprimida, mas parece que as palavras bem aí tendem a ser piegas. Comecei instigando que ela aproveitasse o tempo que fica ali para pensar na primeira coisa que gostaria de fazer quando saísse, no que ela estava ansiosa para fazer, quem ela estava ansiosa para ver... Daí parti pro Sílvio Santos entrando no quarto, com mil câmeras, iluminação, gruas e tudo o mais, dizendo que ela teria que mostrar um talento para ganhar um milhão. Só um talento, só um. Bastava dizer qual era, mas ela resistia em dizer qualquer coisa que ela pudesse fazer bem. Ela apenas apontava a irmã e dizia que a irmã, sim, sabe cozinhar, etc e tal. Particularmente, parecia que ela queria mais fazer uma vitimização perante a irmã. Bom, quando acabou minha criatividade para tirar algo de bom dela que a faria ter vontade de sorrir pra vida, parti pras palavras pregadoras. Hahaha, que horror. Sério, falei que as nossas coisas boas são as únicas que, quanto mais você dá, mais tem. Sua alegria, oferecida a mais pessoas, mais o deixa alegre. Não adianta ser esperto ou inteligente se não compartilhar com outras pessoas; é como juntar dinheiro embaixo do colchão e deixar lá pra sempre. Ninguém aproveita, nem você mesmo! Além disso, essas coisas boas precisam ser não só lembradas como vividas em todos os momentos da vida, inclusive ali, no hospital, onde tenho certeza que ela não escolheu estar. Cada minuto ali também era precioso, ela precisava fazer planos, pensar em seus talentos e como aproveitá-los onde quer que esteja – costurar, escrever, cantar, fazer caretas...

Bom, daí passei pelos outros quartos e não havia mais ninguém. Fiquei algum tempo interagindo com as enfermeiras e visitantes que estavam no corredor, mas não havia muito agito, não. 20h55, voltei pro sétimo andar pra me trocar de novo. Na saída, ainda ouvi umas piadinhas das enfermeiras, “vai, Nanci, pega a chave pra palhaça, hihihi, palhaça, hhihihi” – “ai, não fala assim dela hihihi palhaça hahaha”. Bom, tomara que seja inveja... =)

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