Hospital São Paulo
3º dia de estágio
Das 10h às 13h
Monitora: Carolina Morisawa
Estagiários: Marta (Dra. Joaninha) , Michele e Antonio, todos atuarão às terças-feiras no Hospital... Somente eu irei às segundas!
Hmmm finalmente conheci o hospital onde vou atuar!!! Bem maior que o Hospital Brigadeiro... E com os andares muito bem estruturados e cuidados, acho que uma parte é conveniada e outra é pública. Tem alas patrocinadas também, vi umas placas com nomes de marcas como a Vivara.
Trocamo-nos no sétimo andar, num pequeno espaço onde havia dois banheiros individuais. Doutores apresentados entre si, e pronto! Primeiro percorremos um pouco o hospital, começando do térreo, com os seguranças, recepcionistas e visitantes, e depois fomos subindo. Num dos andares, uma médica nos chamou para conhecer o laboratório, e o pessoal era muito empolgado. Foi demais! As laboratóricas nos viam e começavam a dar risada, acho que é meio inusitado encontrar palhaços enquanto você está analisando tubos de ensaio... Depois de ficarmos todos amigos das bactérias e sanguinhos, e continuamos nossa saga.
A maior parte do hospital estava tranqüila, estava havendo greve, poucos pacientes e menos ainda funcionários. A clínica médica, onde todos nós iremos atuar depois de formados, fica no terceiro andar.
Muitas senhoras simpáticas, a maioria nos achava uma “gracinha”, “todas lindas” e daí a gente ficava tricotando, né! Vi que só tinha mulher, pensei “nossa, que crise, hein!”, e então partimos para a ala masculina – nem sabia que era dividido assim, de um lado do andar só a mulherada, e do outro, os machos.
Em um dos quartos, tivemos uma rejeição. Bem explícita, aliás, como nenhuma outra. Seu Francisco e seu José. Seu Francisco ao lado da porta, deitado com a barriga descoberta pra cima, barba e cabelo rasos e grisalhos. O seu José, por sua vez, teve muita dificuldade para dizer seu nome, e sua roupa estava bem manchada de sangue. Moreno, tinha o cabelo raspado e o corpo encolhido embaixo do cobertor. Seus olhos saltavam, querendo expressar algo desesperador.
Começamos a conversar com o seu Francisco, perguntando sobre ele, o que gosta, se é casado, e então ele interrompeu, secamente: “olha, eu não quero saber dessa conversa de vocês, não quero saber de ninguém, não quero saber de nada lá fora, eu estou doente e não vou ficar aqui fingindo que nada está acontecendo”, começando a se exaltar. Seu José começou a respirar de forma extremamente arfada, vidrando ainda mais seus olhos em nós. Esclarecendo seriamente a intenção do nosso trabalho, e reforçando nosso respeito no caso dos pacientes que não desejam nos receber, observamos seu Francisco cerrar os olhos e virar o rosto, enquanto seu José ainda arfava, se mexendo e mantendo seu olhar esbugalhado. Parecia que queria saltar da cama, o quarto estava tenso.
Ok, não foi um momento agradável de se narrar. Muito menos de estar. Mas rapidamente nos despedimos e saímos. Foi um instante rápido, mas que durou muito tempo em minha cabeça. O que será que seu José estava sentindo, pensando, querendo dizer ou agir? Eu deveria ter perguntado à enfermeira em vez de ficar imaginando isso depois...
Apesar de proporcionarem situações constrangedoras, é por essas pessoas que estamos lá. Para que elas não negativem tanto o ambiente, tornando-o tão incômodo e pesado, dificultando ainda mais a recuperação de todos. O lado bom é que muitas pessoas também internadas se sentem à vontade conosco e com os demais pacientes para conversar sobre tudo, contar suas histórias e dar risada. E aumentar ainda mais a vontade de melhorar logo, chegar em casa, ser recebido por pessoas queridas e até, quem sabe, fazer algo a mais pelo mundo.
Sei lá, eu acho que é um pouco disso o que estamos fazendo ali. Não estamos pra fazer apenas meras piadinhas e “alienar” os pacientes da realidade. Não é à toa que tantos hospitais estabelecem contratos com organizações sociais para que esse tipo de trabalho seja efetuado entre seus atendidos. Não somente crianças como também adultos e idosos, como é o nosso caso.
Quero dizer, chegamos a ir até a pediatria, nos últimos 25 minutos. Mas é diferente – nosso objetivo na pediatria é “amenizar” o ambiente para os pais e acompanhantes das crianças.
A primeira mãe que conversamos estava com cara de longas lamúrias. Seu semblante era cansado e sério. Ela estava estirada numa poltrona, ao lado de um pequeno leito onde seu filho de 12 anos estava deitado. Mãe é foda. Desculpe a palavra, mas acho tão difícil expressar com outra coisa. São mães que largaram seus empregos, que passam noites em claro, que deixaram seus outros tantos filhos em casa, que ficam longe do apoio do marido... Mas que nunca permitiriam que seus filhos sofressem tanto quanto elas. E é essa sofreguidão que os filhos sentem nos leitos. Essa tensão pela dor. Esse lamento silencioso. Mães que tentam carregar consigo tudo o que puderem, com a força que arrancam de nem imagino onde!
Bom, mas o fato é que uma criança acompanhada por tantos sentimentos pesados assim não melhora. Pode até sair do hospital, mas traumatizada pelas condições compressoras. É por isso que as mães também precisam estar positivadas, precisam transmitir boas emoções para seus filhos, que são tão sensíveis a elas. Elas estão lá, mas o carinho e o orgulho precisam ser maiores.
E são crianças e bebês em todos os estados. Não chegamos a entrar na UTI, porque o tempo se esgotou rápido, mas passamos pelos quartos e atuamos rapidamente em cada um. Apesar de as mães sempre chamarem seus filhos “olha, filhinho, o palhaço!”, é com elas que queremos falar.
Bem, nada fácil. A Carol adora a pediatria. Eu senti muito impacto e dificuldade. É realmente bem diferente de atuar apenas com adultos.
Hoje foi uma experiência e tanto. Sem idéias pra quanto cansaço senti ao chegar em casa. Dor nos joelhos, fome e sede, bem como a Carol nos perguntou. Totalmente acabada. Mas refletindo.
Eu acho que ainda vou ter altos insights. Peraí.
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