terça-feira, 6 de novembro de 2007

5/11/2007 – Hospital São Paulo

Segunda-feira
Horário: 19h – 21h15

Uau. Uma hora e meia pra apenas um paciente, que nem era da minha área!

Ele estava no corredor, mas em frente a uma porta cuja placa dizia algo como: “Doenças contagiosas e infecciosas”. Pensei, pronto! Peguei piolho. Mas dois travessões depois do “oi” ele já contou que era apenas HIV.

Bem, assim pelo menos eu dava uma variadinha, já que ele estava tão disposto a conversar. Ô moço simpático, achou ridícula a forma como eu estava vestida, ainda mais sem ganhar nada. Haha coitado, ainda não sabia que eu ia cobrar 10 reais na saída...

De qualquer forma, ele começou a desembuxar a vida. Essas coisas comuns, nada de grandes segredos, a única coisa que ele ainda temia era compartilhar a notícia da doença com os colegas, uma vez que ele mora em uma igreja presbiteriana. Ah, mas não pense “esses pastores pervertidos, nossa senhora!”. Ele é convertido há cerca de 10 anos, apenas; e no momento tinha 55 primaveras.
“Estou pagando uma coisa de 15 anos atrás. Exatamente 15 anos. Eu sei exatamente o que foi”. Uma pessoa de extrema e elegante eloqüência, ágil com as palavras, metafórico, subjetivo; eu diria até poético em suas histórias. Sinceramente.

E o melhor de tudo foram os nada de grandes segredos; a cada 10 minutos, ele começava a descrever uma diferente situação em que viveu. E que vida sem emoção. Alcoólatra, toxícólatra (?), uma outra expressão para fumante obsessivo, morador de rua, catador de papelão, detento, etc, etc, etc. E contou todos os detalhes. Apostas na detenção valendo maços de cigarro (Minister era a grande moeda), queimadas de cigarro na barriga em sua primeira internação clínica, bebericadas em uísques de umbanda (em um terreiro que freqüentou por três anos e meio), aventuras noturnas na cracolândia, amizades com prostitutas-traficantes, experiências homossexuais (mas nunca passivas!), uma filha e um neto de pouco mais de um ano de idade, os livros que leu, sua impressão sobre o filme Carandiru (“se cadeia é aquilo, quero voltar pra lá!”), e enfim a redenção a Deus.
Suas olheiras mudavam de cor conforme mudava suas histórias. E ele contava sem pudores (“não vou mais te ver, certo? Posso dizer tudo. O pastor da minha igreja sabe exatamente tudo isso, e mais”). Detalhes. Racionalidade. Apuração de fatos e impressões. A sensação de fumar chá porque não havia cigarro. A perspectiva dos colegas viciados em crack. Sem momentos piegas. Nem hipócritas. E a intenção em cada palavra, a medida certa para cada entonação.
O incrível foi despedir-me dele encarando seu olhar de santo. De um senhor religioso. “Vá com Deus”.

Bem, dadas as 21 horas, apenas passei pelos corredores dos sete andares abaixo, interagindo com os transeuntes. E voltei, reflexiva e impressionada. Ele ainda teria que ouvir “você estava infectado esse tempo todo e nós usamos os mesmos pratos???”.

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