terça-feira, 6 de novembro de 2007

Patch Adams no Roda Viva

TV Cultura, 5/11/2007 (gravação em 4/9/2007)


O programa foi indescritível. Não sei porque, me emocionei muito mais que “ao vivo”, na palestra “Humor and Health” e no workshop “What’s your love strategy?”. Talvez seja pela TPM, ok, pode ser, mas ele pareceu mais dono do controle no programa. Foi incrível.
Não vou contar todo como foi; ele repetiu muitas das idéias, conceitos, opiniões, posicionamentos, etc. Tudo fantástico. E o mais incrível: em nenhum momento ele citou o palhaço. Todo o trabalho em favor da mobilização social era político, econômico, social, ambiental, vital, tudo o que você possa imaginar.

Ah, e uma coisa nova eu pude aprender; e como.

O apresentador Cunha Jr. apresentou um depoimento pessoal: ele estudou medicina, mas se frustrou com uma série de situações, muito semelhantes às relatadas no filme “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, com Robin Willians. Pacientes tratados simplesmente como fígados com câncer, corrupção, controle da indústria farmacêutica, sobreposição dos lucros à saúde dos pacientes, negativismo, etc. Hoje, ele é jornalista, e com isso é feliz.

Bem, Patch acenou com a cabeça, concordando enquanto o apresentador falava, e então começou: “São pessoas como você que não consigo entender. Vê as coisas acontecendo erradas, e não faz nada para mudá-las, simplesmente desiste! E ainda pensa ser jornalista, você acha que jornalismo existe? Ou também não são corporações sobrepondo seus interesses lucrativos sobre a informação que a população acessa?”. E então ele continuou atacando muito a televisão e as grandes emissoras; e insistiu na primeira questão, que foi a que realmente me tocou. Eu juro que não esperava por essa reação, e é simplesmente lógica, simples e genial!

Quantas vezes nos omitimos de fatos que acontecem diante de nós??? De crianças esmolando na rua? De uma amiga que é molestada pelo namorado? De um colega que sofre preconceito no trabalho? De um político que não é julgado? E a gente simplesmente reage dizendo que o mundo é injusto, de não acreditar que as coisas sejam assim. E não suportamos ter que conviver com isso. E vamos procurar outra coisa para fazer para que possamos contribuir de uma outra maneira (estou sendo otimista com o exemplo de pessoas que procuram contribuir).

A incoerência do mundo que vemos é também a nossa. Eu faço parte do mundo que vejo todos os dias, e se eu não fizer nada para mudá-lo, também contrariarei minha própria ética.

Eu quero enfrentar de frente o mundo em que vivo, com seus prós e contras, e quero fazer tudo o que estiver dentro do meu alcance e dos meus valores para, ao menos, dizer que fiz e exigir que os outros também o façam.


5/11/2007 – Hospital São Paulo

Segunda-feira
Horário: 19h – 21h15

Uau. Uma hora e meia pra apenas um paciente, que nem era da minha área!

Ele estava no corredor, mas em frente a uma porta cuja placa dizia algo como: “Doenças contagiosas e infecciosas”. Pensei, pronto! Peguei piolho. Mas dois travessões depois do “oi” ele já contou que era apenas HIV.

Bem, assim pelo menos eu dava uma variadinha, já que ele estava tão disposto a conversar. Ô moço simpático, achou ridícula a forma como eu estava vestida, ainda mais sem ganhar nada. Haha coitado, ainda não sabia que eu ia cobrar 10 reais na saída...

De qualquer forma, ele começou a desembuxar a vida. Essas coisas comuns, nada de grandes segredos, a única coisa que ele ainda temia era compartilhar a notícia da doença com os colegas, uma vez que ele mora em uma igreja presbiteriana. Ah, mas não pense “esses pastores pervertidos, nossa senhora!”. Ele é convertido há cerca de 10 anos, apenas; e no momento tinha 55 primaveras.
“Estou pagando uma coisa de 15 anos atrás. Exatamente 15 anos. Eu sei exatamente o que foi”. Uma pessoa de extrema e elegante eloqüência, ágil com as palavras, metafórico, subjetivo; eu diria até poético em suas histórias. Sinceramente.

E o melhor de tudo foram os nada de grandes segredos; a cada 10 minutos, ele começava a descrever uma diferente situação em que viveu. E que vida sem emoção. Alcoólatra, toxícólatra (?), uma outra expressão para fumante obsessivo, morador de rua, catador de papelão, detento, etc, etc, etc. E contou todos os detalhes. Apostas na detenção valendo maços de cigarro (Minister era a grande moeda), queimadas de cigarro na barriga em sua primeira internação clínica, bebericadas em uísques de umbanda (em um terreiro que freqüentou por três anos e meio), aventuras noturnas na cracolândia, amizades com prostitutas-traficantes, experiências homossexuais (mas nunca passivas!), uma filha e um neto de pouco mais de um ano de idade, os livros que leu, sua impressão sobre o filme Carandiru (“se cadeia é aquilo, quero voltar pra lá!”), e enfim a redenção a Deus.
Suas olheiras mudavam de cor conforme mudava suas histórias. E ele contava sem pudores (“não vou mais te ver, certo? Posso dizer tudo. O pastor da minha igreja sabe exatamente tudo isso, e mais”). Detalhes. Racionalidade. Apuração de fatos e impressões. A sensação de fumar chá porque não havia cigarro. A perspectiva dos colegas viciados em crack. Sem momentos piegas. Nem hipócritas. E a intenção em cada palavra, a medida certa para cada entonação.
O incrível foi despedir-me dele encarando seu olhar de santo. De um senhor religioso. “Vá com Deus”.

Bem, dadas as 21 horas, apenas passei pelos corredores dos sete andares abaixo, interagindo com os transeuntes. E voltei, reflexiva e impressionada. Ele ainda teria que ouvir “você estava infectado esse tempo todo e nós usamos os mesmos pratos???”.